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  • Clay Gonçalves

Cartão de crédito: uma faca de dois gumes

Como planejadora financeira, vivo em uma busca incessante de uma maneira de otimizar o controle do orçamento pessoal. Essa tarefa, embora nem um pouco divertida, é uma peça importante, para não dizer essencial, do cuidado que precisamos dispensar às finanças. Mas reconhecemos, aqui deste lado, que todo ser humano tem certo grau de dificuldade e resistência quando o assunto é orçamento. Seja por ser uma tarefa tediosa, seja pelo medo de confrontar as despesas, o que pode abrir margem para a admissão da necessidade de mudança.

Embora haja ampla discussão sobre os malefícios do uso do cartão de crédito, e não discordo deles, quero te mostrar como ele pode ser um forte aliado nessa organização. Entretanto, para que você faça uso dessa ferramenta sem passar por grandes traumas, é extremamente importante o devido conhecimento das regras de sua utilização.

A facilidade de uso do cartão de crédito pode trazer um descontrole e, pior ainda, uma fatura maior do que o que se pode pagar. Então, a primeira importante regra é: cartão de crédito é um produto financeiro de crédito pós-pago. Sua principal característica é a possibilidade de adiar o pagamento de um consumo realizado hoje.

O ponto de distorção dessa ferramenta é o próprio comportamento humano, que ao dimensionar a quantidade máxima de dinheiro disponível para cobrir essas despesas no próximo mês, leva a racionalidade a uma armadilha mental, fazendo com que se acredite que esse valor é maior do que é de fato. Trocando em miúdos, o ser humano superestima a quantidade de dinheiro que terá no momento de pagar a fatura ou, pior ainda, opta por não pensar nesse momento.

Por isso é importante que o ajuste do limite do seu cartão de crédito seja compatível com o valor mensal que você dispõe para as despesas concentradas nele. Essa simples ação pode funcionar como uma trava que evitará dívidas.

A regra número dois é conhecer como a cobrança é operacionalizada, pois como produto de crédito, há cobrança de juros.

Existem quatro possíveis situações frente a fatura. A primeira e a mais indicada é o pagamento total, pois não haverá nenhuma cobrança de juros.

Quando não se possui recursos suficientes para o pagamento total, é possível pagar o mínimo da fatura, valor estabelecido pela instituição financeira, de acordo com o perfil de risco da operação de crédito. O pagamento do valor mínimo coloca o consumidor automaticamente no crédito rotativo. Neste caso, há cobrança de juros e encargos financeiros previstos no contrato. O crédito rotativo é uma postergação da dívida por 30 dias, caso o pagamento não seja efetuado na próxima fatura, o cliente estará automaticamente inadimplente.

Se a situação chegou em um ponto ainda mais crítico e os recursos necessários só são suficientes para pagamento inferior ao mínimo, o consumidor estará automaticamente inadimplente, além disso serão cobrados juros do crédito rotativo (por dia de atraso), multa de 2% sobre o principal e juros de mora de 1% ao mês.

Quando se opta por caminhos diversos ao pagamento total da fatura, a operação de crédito passa a ter custos antes ignorados. É nesse ponto que ressalto a importância do conhecimento das regras do jogo.


Isso auxilia a nossa racionalidade, pois fornecemos elementos concretos para a tomada de decisão, evitando assim de "deixar para se preocupar com a fatura depois".

De acordo com divulgação periódica do Banco Central do Brasil, os juros para o parcelamento de fatura variam de 2,73% ao mês até 16,08% ao mês. Já para o crédito rotativo, variam de 0,68% ao mês até 20,79% ao mês. Talvez essa seja a componente mais importante das regras.

Esses números significam que, ao pagar o mínimo de uma fatura e entrar em um crédito rotativo de R$1000, no próximo mês o consumidor pagará entre R$1006 e R$1207,90. Do ponto de vista de parcelamento, uma fatura de R$1000 em 12x resultará no total entre R$1187,40 e R$2316,65.

O problema potencial nesse cenário é que, ao deixar de fazer o pagamento integral de uma fatura, a situação vira a famosa "bola de neve", pois as outras faturas continuam chegando e a dívida toma proporções que, por vezes, foge da capacidade de controle e resolução.

O cartão de crédito, quando utilizado de maneira estratégica, com limite condizente as suas fontes de renda e com o apoio de um planejamento que conte com uma reserva financeira, pode trazer benefícios, como descontos em estabelecimentos parceiros e interessante programas de recompensas e milhagens, além de funcionar como uma ferramenta de controle de despesas.

O cartão de crédito é sem dúvida é uma faca de dois gumes, mas é importante que se aprimore o repertório de educação financeira. Desta maneira, produtos que outrora se mostravam como um detrator do bem-estar financeiro, passam a trabalhar para o incremento de qualidade na gestão financeira e consequente aumento deste bem-estar.

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